A problemática das quedas na população idosa


O Exercício físico aumenta ou reduz o perigo de quedas nos idosos?


As quedas são o acidente doméstico mais frequente entre a população idosa, e são também a principal causa de morte, de acordo com o SNS. [1] Esta realidade dramática está enraizada no pensamento e nas escolhas quer dos idosos, quer dos seus cuidadores e paradoxalmente este receio é também um obstáculo à prática de exercício entre os idosos, embora o exercício físico seja, comprovadamente, um fator fundamental na prevenção das quedas. [2]


Porque é que as quedas são um problema para os idosos?


São considerados idosos os indivíduos com pelo menos 65 anos, segundo a definição da OMS [1]. Com a idade vem a degradação da condição física e mental dos indivíduos [4] e para aqueles que tiveram uma vida mais sedentária essa degradação é mais significativa. No melhor cenário, as quedas resultam na perda de independência e de qualidade de vida, frequentemente acarretando factores de morbilidade [2], mas a consequência mais frequente é a morte. [3] Segundo dados do SNS relativos ao período entre 2000 e 2013, por cada 100 internamentos, 3 foram originados por quedas de idosos, que se traduziram em termos médios em 13 dias de internamento. Mais dramático ainda é o facto de 6 em cada 100 internamentos por quedas de idosos terem resultado em morte durante o internamento. [1] São frequentes as quedas nos idosos?


São frequentes as quedas nos idosos?


As quedas afectam anualmente entre 30% a 40% dos idosos não institucionalizados e 50% dos idosos que estão institucionalizados. 3 Por não se enquadrarem na definição de queda, estão excluídos destes números os acidentes causados por episódios agudos resultantes de patologias (acidentes vasculares encefálicos, convulsões, etc.), ou os que resultam de factores extrínsecos (abalroados por algo ou alguém, etc.) [3], pelo que a expressão global do fenómeno é efetivamente dramática e com graves repercussões ao nível dos indivíduos, das famílias, das comunidades e da sociedade.


As causas mais frequentes de quedas nos idosos


Os factores que causam as quedas dos idosos podem ter causas extrínsecas e intrínsecas 1 3 [4]:

  • Riscos ambientais: relevos no solo, degraus, calçada escorregadia, mobiliário inadequado, etc.

  • Riscos resultantes da degradação das capacidades dos idosos: fraqueza muscular, encurtamentos ou contraturas musculares, rigidez articular, alterações da tensão arterial, compromisso do equilíbrio face a alterações da visão ou ao nível do ouvido interno, degeneração da capacidade visual e cognitiva são todos factores que potenciam o risco de queda.


Como prevenir as quedas através do exercício


Vários estudos demonstram que programas de exercícios na população idosa reduzem o risco de queda por intervirem direta ou indiretamente sobre os principais factores causadores [2]. O exercício físico regular tem resultados positivos demonstrados [11], [12] por exemplo, ao nível de:

  • Hipotonia muscular: atenua a fraqueza muscular que resulta da inatividade e pode causar uma queda por falta de força, [5]

  • Hipertonia muscular: os alongamentos eliminam ou reduzem os encurtamentos e as contraturas musculares que podem impedir a correta realização de movimentos, ou ditar uma postura errada para a sua realização, [6]

  • Artroses: o exercício e a atividade regular atenuam a rigidez articular, que condiciona os movimentos [18]

  • Demência: a estimulação conseguida através do exercício combinada com a influência positiva sobre diversos factores promotores da demência (obesidade, hiperinsulinémia, hipertensão, etc.) atrasa ou até reverte em algum grau a instalação da demência [8] melhorando a atenção e o tempo de reação,

  • Equilíbrio: Os exercícios podem melhorar o equilíbrio quer de forma direta, quer indireta, reduzindo assim a probabilidade de queda.[2] [10]

Para além de ser um fator de prevenção, o exercício físico é também um fator fulcral na mitigação das consequências das quedas:

  • Osteopénia e osteoporose: reforça os ossos, reduzindo os riscos em caso de queda [9]

  • Obesidade – o peso excessivo agrava o impacto da queda [8]

  • Massa muscular – o reforço ou a manutenção de massa muscular [16] proporciona algum amortecimento

  • Confiança – O exercício ajuda a reforçar as capacidades funcionais e a auto-confiança [11] [19] [20]

  • Qualidade de vida [7]

Os melhores programas de exercícios para a prevenção de quedas


Um estudo apresentado na revista ‘Evidence-Based Nursing’ [2] comparou 5 abordagens ao nível dos benefícios que proporcionavam no contexto da prevenção de quedas e todos eles, concluiu-se, reduziram o risco de queda.

Os resultados deste estudo evidenciam 2 aspetos que têm uma maior influência na prevenção do risco de queda:

  1. Treinos de equilíbrio desafiantes, que melhoraram os resultados em 21%,

  2. o doseamento de exercício que quando superior a 50 horas melhorou os resultados em 20%.

Em sentido inverso, os programas de exercício que incluíam marcha produziram resultados menos eficazes, em 32%.

Nota: Este último dado tem uma interpretação mais complexa do que concluir que a marcha é um factor negativo, trata-se de uma questão multi-factorial e que a seu tempo abordaremos nos nossos artigos de base académica.




*Doseamento elevado, total de >50 horas de exercício; Doseamento baixo, total de 50 horas de exercício. A taxa de incidência foi ajustada através dos resultados de meta-regressão.

Foram excluídos os estudos em que o grupo de controle foi instruído a realizar exercício, ou em que o grupo de intervenção foi instruído a realizar atividades extra-exercícios em 0,25% do tempo. [2].


Que mudanças se devem promover para prevenir as quedas de idosos?


A par da criação de espaços seguros, sem obstáculos e perigos face à condição dos idosos como por exemplo ao nível do piso, das portas, da iluminação, casa de banho e desníveis [4], é fundamental racionalizar o medo das quedas quer ao nível dos idosos, quer dos seus cuidadores, uma vez que está bem documentado por estudos científicos descritos no mundo académico que a prática regular de programas de exercícios tem uma expressão significativa na prevenção de quedas [2], além de proporcionar incontáveis outros benefícios que exploraremos em outros artigos. [12]


O que fazer em caso de queda


A primeira coisa a fazer é tentar avaliar a gravidade da queda e suas consequências [4]. Em caso de suspeita de fratura, alteração da consciência, feridas profundas ou extensivas ou de dores significativas [15], a melhor opção é chamar uma ambulância 14 15 para um acompanhamento profissional meticuloso.


Mais importante do que levantar o/a idoso/a é acalmá-lo/a, lembre-o/a de respirar profundamente, estabeleça conversa para acalmar e se recompor de algum grau de choque e aproveite para avaliar o estado mental e a condição geral do/a idoso/a.14


Provavelmente terá lugar alguma conversa, porventura um relato do ocorrido que pode até ser acompanhado de manifestações de embaraço e justificações. Lembre-se que além do embaraço de constatar que já não são tão independentes, a população idosa vive também sob a ameaça da perda de independência e até institucionalização. É importante nesta altura acalmá-los, transmitir a sua compreensão e preservar a sua dignidade.14


Embora este aspeto possa ter que ser aferido por um médico, tome boa nota do relato do sucedido, pode proporcionar pistas para problemas de cariz médico. É contudo possível que o idoso não tenha uma noção plena, ou em alguns casos poderá até tentar camuflar a realidade [3], com medo de julgamentos ou das consequências.14


Para se levantar do chão, caso pareça seguro e o idoso se sinta confortável com a ideia, não o levante, mas antes dê o apoio necessário para que ele/a se levante. Pode acontecer que esteja incapacitado/a para o fazer mas ainda não ter consciência desse facto e poderia também agravar algumas das suas lesões. Realizar alguns ciclos de respiração circular (inspiração pelo nariz e expiração pela boca) pode ser útil para produzir algum relaxamento e acalmia. 14 Se houver profissionais de saúde, ou primeiros socorros perto, não hesite em pedir-lhes ajuda, é a opção mais segura.14


Veja aqui um vídeo (em inglês) de uma técnica reconhecida para ajudar a levantar, havendo mobiliário ou estrutura sólida para apoio por perto.


Lembre-se, a ideia não é forçá-los a levantar, mas ajudá-los a fazê-lo, ao seu ritmo e sem pressa.14


Como ajudar um idoso a recuperar de uma queda


Mesmo que não tenha sido necessário levar o idoso ao médico imediatamente após a queda, é aconselhável fazê-lo com brevidade. É necessário verificar se a queda ocorreu em função de problemas de saúde, ou se existem lesões por diagnosticar.[4] [14]


Mantenha uma proximidade suficiente durante os dias seguintes, mas tente respeitar a individualidade e desejo de autonomia destes, tanto quanto possível. Além das lesões mais imediatas, as quedas causam também abalos na auto-confiança [10] [17] e frequentemente acarretam também receio de perda de autonomia, pelo que o acompanhamento deve ser tão compreensivo e delicado como possível. [14]


No caso de se verificarem sequelas, o recurso a fisioterapeutas será aconselhável, para tratar as sequelas e ajudar a recuperar a confiança. [16], 17


O recurso a programas de exercício específico para prevenir quedas poderá ajudar a prevenir novos acidentes. [2]


Se se verificar que a queda se deveu, ou foi potenciada por obstáculos no seu ambiente, faça as mudanças necessárias para evitar repetições e mesmo que não aparente ser o caso, será aconselhável evitar novos eventos, quer por causa das lesões físicas, quer para evitar minar a confiança perante uma recuperação emocional que é sempre difícil.


Consulte estes sites para mais ideias:

Tropeções, quedas e trambolhões – SNS

CMC PORTUGAL Guia Profissional (ALTA) v15 (ordemenfermeiros.pt)


Conclusão

As quedas dos dos idosos são uma problemática transversal à nossa sociedade em envelhecimento contínuo, com um impacto que transcende os indivíduos e tem ramificações também ao nível das famílias e das comunidades. Muito pode ser feito para minimizar a sua incidência, sobretudo mantendo os idosos mais ativos e o exercício físico diversificado melhora a saúde, a performance e otimiza as suas potencialidades, e também contribui de diversas formas para prevenir as quedas nos idosos, devendo ser adaptado ao indivíduo e inserido num contexto de atividade generalizada e de integração social, produzindo assim impacto quer ao nível físico, quer psicológico, e acarretando inerentes mais-valias ao nível da sua qualidade de vida. Os países de matriz latina, como Portugal, têm na sua tradição o respeito e o cuidado pelos idosos, inseridos num contexto familiar, mas há também um esvaziamento das expectativas que os torna e faz sentir redundantes. A sua institucionalização apresenta desafios adicionais a esse nível, mas é possível em qualquer dos casos integrá-los numa matriz de valorização, atividade e respeito, procurando realçar os seus pontos fortes, mitigando as suas fraquezas e a atividade e particularmente o exercício físico são aliados fundamentais. É também esse o papel dos cuidadores, quer num contexto familiar, quer institucional: conhecer, respeitar e valorizar cada indivíduo, proporcionando-lhes uma vivência enriquecedora.


Referências:

  1. https://www.sns.gov.pt/noticias/2017/12/19/tropecoes-quedas-e-trambolhoes/

  2. Boaro, N., 2009. Review: exercise programmes prevent falls in elderly people. Evidence-Based Nursing, 12(3), pp.86-86.

  3. https://www.msdmanuals.com/pt-pt/profissional/geriatria/quedas-em-idosos/quedas-em-idosos

  4. https://www.ordemenfermeiros.pt/arquivo/colegios/Documents/MCEER_FM_Guia_Profissionais_CMC.pdf

  5. Smith, S., Simpson, J. and Hastie, I., 1995. Elderly In-patients Need More Exercise: A Functional Exercise System. Physiotherapy, 81(10), pp.605-610.

  6. Cristopoliski, F., Barela, J., Leite, N., Fowler, N. and Rodacki, A., 2009. Stretching Exercise Program Improves Gait in the Elderly. Gerontology, 55(6), pp.614-620.

  7. Santos, S., Santos, I., Fernandes, M. and Henriques, M., 2002. Qualidade de vida do idoso na comunidade: aplicação da Escala de Flanagan. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 10(6), pp.757-764.

  8. Kirk-Sanchez, N. and McGough, E., 2013. Physical exercise and cognitive performance in the elderly: current perspectives. Clinical Interventions in Aging, [online] p.51. Available here: https://www.dovepress.com/

  9. Suominen, H., 2007. 415 Exercise in elderly men - effects on bone and performance. Journal of Science and Medicine in Sport, 10, p.135.

  10. SULLIVAN, M., 2005. Gentle Exercise Improves Balance in Frail Elderly. Family Practice News, 35(17), p.64.

  11. https://pmj.bmj.com/content/90/1059/26

  12. Sherrington C, Whitney JC, Lord SR, et al. Effective exercise for the prevention of falls: a systematic review and meta-analysis. J Am Geriatr Soc 2008;56:2234–43

  13. https://youtu.be/10jR0zjl19Y

  14. https://www.carewatch.co.uk/what-to-do-if-an-elderly-person-falls/

  15. https://institutomongeralaegon.org/longevidade-e-saude/saude-fisica/master-acidente-domestico-com-idosos

  16. Smith, S., Simpson, J. and Hastie, I., 1995. Elderly In-patients Need More Exercise: A Functional Exercise System. Physiotherapy, 81(10), pp.605-610.

  17. https://www.msdmanuals.com/pt-pt/casa/questões-sobre-a-saúde-de-pessoas-idosas/quedas/quedas-em-idosos

  18. Osborne, R., Chapman, A. and McColl, G., 2002. Management of Osteoarthritis in Older People. Journal of Pharmacy Practice and Research, 32(4), pp.272-281.

  19. Bower, E., Wetherell, J., Petkus, A. and Lenze, E., 2020. Neuroticism predicts fear of falling after a hip fracture. International Journal of Geriatric Psychiatry, 35(5), pp.498-506.

  20. Salkeld, G., 2000. Quality of life related to fear of falling and hip fracture in older women: a time trade-off study Commentary: Older people’s perspectives on life after hip fractures. BMJ, 320(7231), pp.341-346.